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Homenagem

Tereza de Benguela: a escrava que virou rainha e liderou um quilombo de negros e indígenas

Tereza de Benguela é uma das grandes lideranças negras da história brasileira. Durante muito tempo, sua trajetória recebeu pouca atenção nos relatos mais difundidos sobre a formação do país. A atuação dos movimentos de mulheres negras e o avanço das pesquisas históricas têm contribuído para ampliar sua visibilidade e recuperar narrativas fundamentais para a compreensão da sociedade brasileira.

Conheça a história dessa mulher incrível!

Pintura de uma mulher negra sentada, obra de Félix Vallotton, posteriormente associada no Brasil à memória de Tereza de Benguela

Félix Vallotton, Femme noire assise de face (1911). A pintura foi posteriormente associada, no Brasil, à memória de Tereza de Benguela, mas não constitui um retrato histórico da líder quilombola. Obra em domínio público. Fonte: Wikimedia Commons.

Não se conhecem com segurança a data e o local de nascimento de Tereza de Benguela. Há hipóteses de que tenha nascido no continente africano e sido trazida para o Brasil, mas parte das narrativas também admite a possibilidade de ela ter nascido em território brasileiro. O que se sabe é que viveu no século XVIII, na região do vale do Guaporé, na então Capitania de Mato Grosso.

Tereza liderou o Quilombo do Quariterê, também chamado de Quilombo Grande, situado nas proximidades da atual fronteira entre Mato Grosso e a Bolívia. O núcleo reconstruído depois do ataque de 1770 passou a ser conhecido como Quilombo do Piolho.

José Piolho, apontado em parte da bibliografia como companheiro de Tereza, exercia importante papel de liderança e atuava como conselheiro da comunidade. Após a morte dele, Tereza assumiu a chefia do quilombo e se destacou por sua capacidade de organização política, econômica e militar.

Sob sua liderança, a comunidade, formada por cerca de cem pessoas negras e indígenas, resistiu à escravidão e aos ataques das forças coloniais. Tereza tornou-se conhecida como “Rainha Tereza”, denominação encontrada em registros históricos sobre o quilombo.

A localização de difícil acesso favorecia a defesa da comunidade. Seus moradores cultivavam milho, feijão, mandioca, batata, amendoim e algodão. O algodão era fiado e utilizado na produção de tecidos, enquanto oficinas de ferreiro fabricavam e consertavam ferramentas. Parte dos excedentes podia ser comercializada na região.

Tereza comandava a estrutura política, administrativa e econômica do quilombo. As decisões coletivas eram discutidas em uma espécie de conselho. Os Anais de Vila Bela, documento do século XVIII, registraram essa forma de organização:

“Governava-se esse quilombo a modo de parlamento, tendo para o conselho uma casa destinada [...]”.

Anal de Vila Bela do ano de 1770, reproduzido em Amado e Anzai (2006, p. 140).

O mesmo registro relata que os integrantes do conselho se reuniam em dias determinados e que Tereza presidia as decisões. A descrição revela uma comunidade organizada, com autoridades próprias e mecanismos coletivos de administração.

Relatos preservados pela memória oral da região também contam que Tereza navegava pelos rios do Pantanal em embarcações utilizadas nos deslocamentos e nas atividades da comunidade.

Em 1770, uma expedição militar comandada pelo sargento-mor Ignacio Leme da Silva atacou o Quilombo do Quariterê. Durante a tentativa de fuga, Tereza feriu o pé, foi capturada e levada para a prisão em Vila Bela. De acordo com os registros de época, ela morreu poucos dias depois. Após sua morte, as forças coloniais cortaram sua cabeça e a expuseram no quilombo como forma de intimidação. Narrativas posteriores também difundiram versões de que Tereza teria cometido suicídio ou sido assassinada.

O ataque de 1770 não encerrou definitivamente a resistência naquela região. Sobreviventes reorganizaram a comunidade, que permaneceu no mesmo território até 1795, quando outra expedição militar destruiu o núcleo então conhecido como Quilombo do Piolho.

Em reconhecimento à sua importância histórica, a Lei nº 12.987, de 2 de junho de 2014, instituiu o dia 25 de julho como o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra.

Tereza também foi homenageada pela escola de samba Unidos do Viradouro. Em 1994, a agremiação apresentou o enredo Tereza de Benguela – Uma Rainha Negra no Pantanal, levando sua história para a avenida.

Unidos do Viradouro, Carnaval de 1994: “Tereza de Benguela – Uma Rainha Negra no Pantanal”. Vídeo publicado no YouTube pelo canal maravillatropical.

Indicações de leitura e estudos sobre mulheres negras e quilombolas

  • NASCIMENTO, Beatriz. O negro visto por ele mesmo: ensaios, entrevistas e prosa. Organização de Alex Ratts. São Paulo: Ubu Editora, 2022.
  • CARNEIRO, Sueli. Escritos de uma vida. São Paulo: Pólen Livros, 2019.
  • WERNECK, Jurema; MENDONÇA, Maísa; WHITE, Evelyn C. (org.). O livro da saúde das mulheres negras: nossos passos vêm de longe. 2. ed. Rio de Janeiro: Pallas; Criola, 2006.

Essas autoras contribuem para a compreensão do papel das mulheres negras na formação do Brasil, de suas estratégias de resistência e dos caminhos para a construção de uma sociedade mais justa e antirracista.

Como citar esta matéria

HIRSCH, Lorena Araújo. Tereza de Benguela: a escrava que virou rainha e liderou um quilombo de negros e indígenas. Biblioteca do CECULT/UFRB, 25 jul. 2018. Disponível em: https://ufrb.edu.br/bibliotecacecult/noticias/220-tereza-de-benguela-a-escrava-que-virou-rainha-e-liderou-um-quilombo-de-negros-e-indios. Acesso em: ___.

Fontes e referências

  • AMADO, Janaína; ANZAI, Leny Caselli (org.). Anais de Vila Bela: 1734–1789. Cuiabá: Carlini & Caniato; EdUFMT, 2006. Disponível em: EdUFMT.
  • BORGES, Pedro. Tereza de Benguela, a liderança negra brasileira. Alma Preta, 20 jul. 2017. Disponível em: Alma Preta.
  • FARIAS JÚNIOR, Emmanuel de Almeida. Negros do Guaporé: o sistema escravista e as territorialidades específicas. RURIS — Revista do Centro de Estudos Rurais, v. 5, n. 2, p. 85–116, 2011. DOI: 10.53000/rr.v5i2.1467.
  • FUNDAÇÃO CULTURAL PALMARES. Tereza de Benguela, a Rainha Tereza. 25 jul. 2017. Disponível em: Fundação Cultural Palmares.
  • UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE. Tereza de Benguela. Impressões Rebeldes. Disponível em: Impressões Rebeldes/UFF.
  • BRASIL. Lei nº 12.987, de 2 de junho de 2014. Cria o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra.
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