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Setembro Amarelo

Sofrimento emocional silencioso: quando manter a rotina não significa estar bem

Saúde mental, vida acadêmica e cotidiano

Estudar, trabalhar, conversar, cumprir prazos e continuar realizando as atividades do dia a dia podem transmitir a impressão de que está tudo bem. Mas funcionamento, desempenho e aparência não contam, sozinhos, toda a história sobre a saúde mental de uma pessoa.

Se você só tiver um minuto

O sofrimento emocional nem sempre produz sinais facilmente percebidos por quem está ao redor. Uma pessoa pode continuar estudando, trabalhando, convivendo e mantendo parte de sua rotina enquanto enfrenta dificuldades emocionais importantes.

Ao mesmo tempo, sentir tristeza, preocupação, cansaço, medo ou ansiedade em determinados momentos não significa automaticamente ter um transtorno mental.

O ponto central é evitar dois extremos: não presumir que alguém está bem apenas porque continua produtivo, mas também não transformar toda dificuldade emocional em diagnóstico.

Quando o sofrimento se torna persistente ou intenso, interfere significativamente na vida cotidiana ou desperta preocupação, procurar apoio pode ser necessário — e não é preciso esperar que a situação chegue ao limite.

Setembro Amarelo: falar sobre saúde mental também é prevenção

Setembro é marcado pela campanha Setembro Amarelo, dedicada à conscientização e à prevenção do suicídio. A mobilização também abre espaço para uma conversa mais ampla sobre saúde mental: nem todo sofrimento emocional é facilmente percebido por quem está ao redor.

Uma prova entregue no prazo. Uma reunião realizada. Uma conversa no corredor. Uma fotografia sorrindo. No cotidiano, sinais como esses podem transmitir a impressão de que está tudo bem.

Mas continuar estudando, trabalhando, socializando e cumprindo responsabilidades não revela, sozinho, como uma pessoa está emocionalmente.

Reconhecer isso não significa procurar diagnósticos escondidos em cada comportamento. Significa compreender que aparência, produtividade e desempenho não são medidas suficientes de bem-estar — e que informação, acolhimento e acesso ao cuidado podem fazer diferença.

O que as evidências indicam até agora?

A saúde mental é influenciada por uma combinação de fatores individuais, familiares, comunitários e estruturais. A Organização Mundial da Saúde (OMS) destaca que condições sociais, econômicas e ambientais podem atuar tanto como fatores de risco quanto de proteção ao longo da vida.

No contexto universitário, a literatura científica identifica associações entre sofrimento psíquico e diferentes aspectos da experiência acadêmica, das relações sociais, das condições de vida e da saúde.

Uma revisão integrativa brasileira publicada na Ciência & Saúde Coletiva analisou 37 estudos sobre sofrimento psíquico entre estudantes universitários. Os trabalhos encontraram associações com diferentes fatores acadêmicos, relacionais, psicológicos e relacionados à saúde.

Isso não significa, entretanto, que exista uma única causa para o sofrimento ou que todas as pessoas submetidas às mesmas condições terão a mesma experiência.

Há também limites importantes na interpretação desses resultados. Na revisão brasileira, por exemplo, predominaram estudos transversais, muitos deles realizados com populações específicas. Esse tipo de pesquisa é importante para identificar associações, mas geralmente não permite afirmar que determinado fator seja a causa direta de um problema de saúde mental.

Uma revisão mais recente sobre sofrimento psíquico na universidade reforça a complexidade do fenômeno e aponta para a importância de respostas que não se restrinjam ao indivíduo, envolvendo também instituições e redes de atenção.

Por isso, uma conclusão permanece importante: saúde mental é multifatorial e explicações simples raramente dão conta de toda a experiência humana.

Quando “dar conta” não conta toda a história

No cotidiano, é comum avaliarmos como alguém está a partir daquilo que conseguimos observar.

“Ele continua trabalhando normalmente.”

“Ela continua tirando boas notas.”

“Ele saiu com os amigos ontem.”

“Ela parecia tão bem.”

Essas observações podem ser verdadeiras. O problema surge quando elas são transformadas automaticamente na conclusão de que não existe sofrimento.

O funcionamento cotidiano envolve diferentes dimensões: estudar, trabalhar, cuidar de si, estabelecer relações, cumprir responsabilidades e participar da vida social. Essas dimensões não necessariamente são afetadas da mesma maneira ou ao mesmo tempo.

Por isso, desempenho acadêmico ou profissional, sociabilidade e aparência não devem ser utilizados isoladamente como medidas de bem-estar emocional.

Uma pessoa pode estar presente em sala de aula e, ainda assim, enfrentar dificuldades. Pode cumprir uma jornada de trabalho e sentir-se emocionalmente sobrecarregada. Pode conversar, sorrir e manter relações sociais sem que isso revele tudo o que está vivenciando.

O contrário também merece cuidado: uma queda de rendimento ou um período de isolamento não permitem, sozinhos, concluir que alguém possui um transtorno mental.

Sofrimento emocional não é sinônimo de transtorno mental

Essa distinção é fundamental.

Tristeza, preocupação, medo, frustração, cansaço e ansiedade fazem parte da experiência humana e podem aparecer diante de perdas, conflitos, mudanças, pressão, dificuldades financeiras, sobrecarga ou outros acontecimentos da vida.

Isso não significa automaticamente a existência de um transtorno mental.

Ao mesmo tempo, compreender que determinada reação pode ocorrer diante de situações difíceis não significa que o sofrimento precise ser ignorado.

Segundo a OMS, os transtornos mentais envolvem perturbações clinicamente significativas na cognição, na regulação emocional ou no comportamento e estão geralmente associados a sofrimento ou comprometimento em áreas importantes da vida.

Estabelecer um diagnóstico, portanto, é diferente de reconhecer que alguém não está bem.

Informações encontradas em sites, vídeos ou redes sociais podem ajudar uma pessoa a compreender determinados temas e até incentivá-la a procurar ajuda. Mas não substituem uma avaliação profissional.

Cuidado com os rótulos que circulam nas redes

A ampliação das conversas sobre saúde mental trouxe benefícios importantes. Assuntos que durante muito tempo permaneceram cercados por silêncio e preconceito passaram a fazer parte das conversas cotidianas.

Mas essa popularização também exige cuidado.

Termos clínicos como ansiedade, depressão, trauma e burnout passaram a circular intensamente nas redes sociais e, algumas vezes, são utilizados para explicar experiências muito diferentes entre si.

Expressões como “depressão sorridente” ou “ansiedade de alto funcionamento” também ganharam espaço para descrever situações em que uma pessoa aparentemente mantém suas atividades enquanto vivencia sofrimento.

Essas expressões podem funcionar como formas informais de comunicar determinadas experiências, mas não devem ser tomadas automaticamente como categorias diagnósticas.

Reconhecer que alguém pode sofrer sem demonstrar isso claramente é diferente de atribuir um diagnóstico a partir de sua aparência ou comportamento.

Na universidade, as notas não contam toda a história

A vida universitária envolve muito mais do que frequentar aulas e realizar avaliações.

Prazos, apresentações, trabalhos, leituras e expectativas relacionadas à formação convivem com questões financeiras, trabalho, deslocamentos, responsabilidades familiares, relações pessoais, adaptação a novos ambientes e incertezas sobre o futuro.

Pesquisas com estudantes universitários encontram associações entre sofrimento psíquico e diferentes aspectos dessas experiências. Também aparecem na literatura fatores que podem atuar como proteção em determinados contextos, como apoio social e algumas estratégias de enfrentamento.

Mas é preciso interpretar esses resultados corretamente.

Eles não demonstram que a universidade, isoladamente, causa sofrimento psíquico. Também não significam que todas as pessoas reagirão da mesma forma às mesmas circunstâncias.

A experiência universitária acontece dentro de uma rede mais ampla de condições pessoais, sociais, econômicas, relacionais e ambientais.

Por isso, uma nota alta não comprova bem-estar.

Da mesma maneira, uma nota baixa não comprova adoecimento mental.

Perceber uma mudança é diferente de fazer um diagnóstico

Em algumas situações, mudanças no comportamento podem chamar a atenção de quem convive com uma pessoa.

Dificuldades persistentes de concentração, alterações importantes no sono, isolamento, perda de interesse por atividades habituais, mudanças significativas no desempenho ou dificuldade para realizar tarefas que anteriormente faziam parte da rotina podem indicar que algo merece atenção.

Mas nenhum desses comportamentos, considerado isoladamente, explica necessariamente o que está acontecendo.

Uma mesma mudança pode estar relacionada a diferentes circunstâncias.

Existe, portanto, uma diferença importante entre perceber que alguém parece estar enfrentando dificuldades e concluir qual é o problema dessa pessoa.

Um colega, professor, familiar ou amigo pode perceber uma mudança e oferecer presença, escuta e incentivo para procurar ajuda quando necessário.

Não precisa — e não deve — assumir o papel de profissional de saúde.

Acolher não é diagnosticar

Às vezes, o primeiro gesto de acolhimento é mais simples do que imaginamos.

Há uma diferença entre dizer:

“Percebi que você não parece bem ultimamente. Quer conversar?”

e afirmar:

“Você está com depressão.”

Também há diferença entre oferecer escuta e tentar apresentar respostas para tudo o que a outra pessoa está vivendo.

Acolher pode significar ouvir com atenção, não minimizar o sofrimento, evitar julgamentos e reconhecer quando é necessário incentivar a procura por apoio profissional.

Não é necessário ter uma solução pronta.

E amigos, familiares, colegas e professores também possuem limites. Apoiar alguém não significa assumir sozinho a responsabilidade pelo cuidado.

Saúde mental não é apenas uma questão individual

Quando se fala em bem-estar, a conversa frequentemente chega às atitudes individuais: dormir adequadamente, praticar atividade física, organizar a rotina, descansar, alimentar-se bem e manter vínculos sociais.

Essas dimensões podem contribuir para a saúde.

Mas reduzir saúde mental a uma lista de hábitos pessoais deixa de fora uma parte importante da questão.

A OMS destaca que fatores individuais, sociais e estruturais podem proteger ou prejudicar a saúde mental. Condições econômicas, desigualdades, violência, discriminação, relações sociais, condições de moradia, estudo e trabalho e acesso a serviços fazem parte desse cenário.

No ambiente de trabalho, a própria OMS aponta riscos psicossociais relacionados, por exemplo, a cargas ou ritmos excessivos de trabalho, discriminação, insegurança no emprego e baixa autonomia.

No contexto universitário, pensar em saúde mental também envolve ambientes acolhedores, relações respeitosas, políticas de permanência, acesso à informação, combate às discriminações e possibilidades reais de procurar cuidado.

Isso ajuda a deslocar uma ideia muito comum: a de que todo sofrimento pode ser resolvido simplesmente se a pessoa aprender a “lidar melhor” com seus problemas.

Cuidado individual é importante. Condições coletivas também são.

Quando procurar ajuda?

Não existe uma regra única que determine o momento exato em que uma pessoa deve procurar apoio.

Mas sofrimento persistente ou intenso, mudanças importantes no cotidiano, prejuízos significativos nos estudos, no trabalho, nas relações ou no autocuidado e a sensação de não conseguir lidar sozinho com aquilo que está acontecendo são motivos legítimos para buscar ajuda.

Também não é necessário possuir um diagnóstico para conversar com um profissional.

E não é preciso esperar que a situação se torne insuportável.

Esse talvez seja um dos pontos mais importantes desta matéria:

a capacidade de continuar cumprindo responsabilidades não invalida a necessidade de cuidado.

Quando há risco de suicídio, a atenção precisa ser imediata

O suicídio é um fenômeno complexo e multifatorial e constitui um importante problema de saúde pública. Segundo a Organização Mundial da Saúde, mais de 720 mil pessoas morrem por suicídio a cada ano no mundo.

Não existe um único comportamento capaz de prever com segurança quem tentará suicídio.

Por isso, quando uma pessoa fala sobre querer morrer, desaparecer, machucar a si própria ou demonstra preocupação relacionada à própria segurança, a situação deve ser levada a sério.

A OMS também esclarece um mito importante: perguntar diretamente a uma pessoa se ela está pensando em suicídio não coloca a ideia em sua cabeça nem aumenta o comportamento suicida. Uma conversa aberta pode permitir que a pessoa fale sobre aquilo que está vivenciando e favorecer a busca por apoio.

Em uma situação de risco imediato, é importante buscar atendimento de urgência.

No Brasil, o SAMU pode ser acionado pelo telefone 192.

O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito pelo telefone 188, 24 horas por dia. O serviço oferece escuta e apoio emocional, mas não substitui atendimento de emergência ou acompanhamento profissional quando estes forem necessários.

Na UFRB: onde buscar apoio

A Universidade Federal do Recôncavo da Bahia disponibiliza iniciativas de acolhimento e apoio à comunidade universitária.

Para estudantes, o Plantão Psicológico oferece acolhimento e escuta qualificada. A iniciativa contempla estudantes de diferentes centros da UFRB, incluindo o CECULT, e funciona como espaço de atendimento psicológico breve e orientação.

A Universidade também possui ações e serviços direcionados aos servidores, além de políticas institucionais relacionadas à promoção da saúde, qualidade de vida no trabalho e enfrentamento aos assédios e discriminações.

Os canais oficiais da UFRB devem ser consultados para informações atualizadas sobre funcionamento, acesso, horários e disponibilidade dos serviços.

Informação também é uma forma de cuidado

Uma biblioteca universitária não substitui serviços de saúde. Seu papel é outro: bibliotecas também são espaços de acesso à informação confiável, formação, cultura e construção de conhecimento.

Em temas como saúde mental, isso significa contribuir para que informações baseadas em evidências circulem de maneira acessível e responsável.

Significa também ajudar a diferenciar conhecimento científico de desinformação, experiência pessoal de evidência, acolhimento de diagnóstico e divulgação científica de aconselhamento clínico.

Em um ambiente no qual informações sobre saúde mental circulam rapidamente pelas redes sociais, desenvolver essa capacidade crítica também é uma forma de cuidado.

Para guardar

Continuar funcionando não significa necessariamente estar bem.

Mas experimentar sofrimento emocional também não significa automaticamente possuir um transtorno mental.

Entre esses dois extremos existe uma experiência humana complexa, influenciada por diferentes fatores e vivenciada de maneiras distintas por cada pessoa.

Talvez o caminho mais responsável seja abandonar a tentativa de descobrir, apenas pela aparência, quem “está bem” ou “está mal” e contribuir para a construção de relações e ambientes em que exista espaço para dizer:

“Hoje eu não estou bem.”

E encontrar, do outro lado, escuta, informação e possibilidade de cuidado.

Nota de cuidado

Este conteúdo tem caráter informativo e educativo. Não tem finalidade diagnóstica e não substitui avaliação ou acompanhamento realizado por profissionais de saúde.

Em situações de risco imediato, procure um serviço de urgência ou acione o SAMU pelo 192. Para apoio emocional, o CVV atende gratuitamente pelo 188, 24 horas por dia.

Fontes consultadas

Nota editorial: concepção da pauta e redação original: Hione Neves.

Edição para publicação e adequação ao formato do site: Biblioteca Universitária Zilda Paim — CECULT/UFRB, com assistência de inteligência artificial na revisão técnica e formatação, sob revisão editorial da equipe.

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