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TRADIÇÕES CULTURAIS

A origem do Carnaval

TRADIÇÕES CULTURAIS

Do entrudo trazido pelos portugueses às marchinhas, ao samba, aos afoxés, ao frevo, ao maracatu e ao trio elétrico, o Carnaval brasileiro foi construído por encontros, disputas e transformações culturais.

Pintura de Giandomenico Tiepolo com pessoas mascaradas em uma cena de Carnaval veneziano
Giandomenico Tiepolo, Cena de Carnaval ou O Minueto, 1754. Óleo sobre tela, Museu do Louvre, Paris. Reprodução em domínio público: Museu do Louvre / Wikimedia Commons.

Uma história construída por encontros

Não existe uma única origem capaz de explicar o Carnaval brasileiro como ele é conhecido atualmente. O entrudo português e as festas de máscaras europeias estão entre as referências que chegaram ao Brasil durante a colonização, como registra a obra sobre marchinhas organizada por Roberto Lapiccirella. No entanto, essas práticas foram profundamente transformadas no país pela atuação de diferentes grupos sociais e, de maneira decisiva, pelas culturas africanas e afro-brasileiras.

Por isso, é mais adequado falar em formação e transformação do Carnaval brasileiro do que atribuir a festa exclusivamente a uma única matriz cultural. O entrudo ajuda a explicar o início dessa trajetória, mas não resume a diversidade de manifestações que se desenvolveram no Brasil.

O entrudo no período colonial

A palavra entrudo deriva do latim introitu, com o sentido de entrada ou introdução, e fazia referência ao período que antecedia a Quaresma. Trazida pelos colonizadores portugueses, a brincadeira tornou-se uma das primeiras manifestações relacionadas ao Carnaval no Brasil, conforme registra a Fundação Joaquim Nabuco.

Nas ruas, as pessoas lançavam umas nas outras água, farinha e diferentes substâncias. Também eram usados os chamados limões de cheiro, pequenas esferas de cera preenchidas com líquido perfumado. Nem sempre, porém, a brincadeira era inofensiva: líquidos sujos, alimentos deteriorados e materiais capazes de provocar ferimentos fizeram com que o entrudo fosse frequentemente descrito como violento.

A participação na festa também revelava as desigualdades da sociedade colonial. Pessoas escravizadas ocupavam as ruas e participavam das brincadeiras públicas, enquanto famílias abastadas costumavam permanecer em suas residências, de onde também lançavam água sobre quem passava. Assim, a folia reunia diferentes grupos, mas não eliminava as hierarquias sociais nem a violência da escravidão.

Ao longo do século XIX, sucessivas proibições e campanhas da imprensa buscaram controlar o entrudo. Enquanto as manifestações populares eram reprimidas, clubes e teatros recebiam bailes de máscaras inspirados nos modelos europeus, embalados principalmente por polcas. A tentativa de disciplinar a festa, contudo, não impediu que novas formas de Carnaval ocupassem as ruas.

Desenho de Angelo Agostini mostrando uma movimentada cena de Carnaval no Rio de Janeiro em 1884
Angelo Agostini, cena de Carnaval no Rio de Janeiro, 1884. Publicada na Revista Illustrada, ano 9, nº 373, p. 4–5. Obra em domínio público. Fonte: Wikimedia Commons.

Sociedades, cordões, ranchos e novas sonoridades

Na segunda metade do século XIX, as grandes sociedades carnavalescas passaram a organizar cortejos com fantasias, carros alegóricos e apresentações públicas. Paralelamente, as camadas populares criaram cordões e ranchos, que articulavam música, dança, elementos das procissões religiosas, capoeira, percussão e experiências das comunidades urbanas e rurais.

Os cordões apresentavam formações mais livres e ruidosas, muitas vezes acompanhadas pelos zé-pereiras, tocadores de grandes bumbos. Os ranchos desenvolveram cortejos mais organizados, com porta-estandarte, canto e acompanhamento instrumental. Essas manifestações ajudaram a preparar o terreno para as marchinhas, os blocos e, posteriormente, as escolas de samba.

Em 1899, Chiquinha Gonzaga compôs Ó Abre Alas para o cordão Rosa de Ouro. A obra é reconhecida como a primeira música brasileira criada especialmente para animar o Carnaval e tornou-se uma referência da marcha carnavalesca, conforme registra o Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira.

O samba e a presença afro-brasileira

O samba urbano carioca consolidou-se no início do século XX a partir de tradições musicais afro-brasileiras, das rodas realizadas em casas de baianas e dos encontros de músicos na região da Praça XI, conhecida como Pequena África. A casa de Tia Ciata tornou-se um dos principais espaços dessa história.

Em 1916, Donga registrou na Biblioteca Nacional a composição Pelo Telefone, associada também a Mauro de Almeida e a uma criação coletiva ocorrida nas rodas de samba. A música alcançou grande sucesso no Carnaval de 1917 e ficou conhecida como um marco da gravação e da difusão do gênero, embora sua autoria e a ideia de ter sido o “primeiro samba” continuem sendo discutidas por pesquisadores. O registro histórico está preservado pela Fundação Biblioteca Nacional.

Foliões fantasiados participando do Carnaval de rua em Olinda, Pernambuco
Carnaval de rua em Olinda, Pernambuco, 2006. Fotografia: LeRoc. Licença CC BY-SA 3.0. Fonte: Wikimedia Commons.

Uma festa de muitos Brasis

Enquanto o samba e as marchinhas ganhavam projeção no Rio de Janeiro, outras manifestações reafirmavam a diversidade do Carnaval brasileiro. Na Bahia, os afoxés levaram às ruas ritmos, cortejos e símbolos ligados às tradições africanas e às religiões de matriz africana. Em Pernambuco, o frevo formou-se entre bandas, capoeiristas e grupos populares do Recife, enquanto os maracatus consolidaram expressões fundamentais da identidade afro-brasileira.

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) reconhece essa pluralidade ao destacar, entre os bens culturais associados à festa, o frevo, o Maracatu Nação, o Maracatu de Baque Solto, as matrizes do samba do Rio de Janeiro, o Samba de Roda do Recôncavo Baiano e o Caboclinho de Pernambuco.

Nas primeiras décadas do século XX, os corsos também se tornaram populares. Neles, integrantes das elites urbanas percorriam as avenidas em automóveis abertos, lançando confetes e serpentinas. A prática perdeu força por volta da década de 1930, período em que as escolas de samba ampliavam sua presença na vida cultural das cidades.

1899

Chiquinha Gonzaga compõe Ó Abre Alas para o cordão Rosa de Ouro.

1916

Donga registra Pelo Telefone, sucesso no Carnaval do ano seguinte.

1928

É fundada a Deixa Falar, considerada pioneira entre as escolas de samba.

1932

O Rio de Janeiro recebe o primeiro desfile competitivo de escolas de samba.

1950

Dodô e Osmar levam a “Fobica” às ruas de Salvador, marco do trio elétrico.

1984

É inaugurada a Passarela do Samba, o Sambódromo do Rio de Janeiro.

Das primeiras escolas ao Sambódromo

Fundada no bairro carioca do Estácio em 1928, a Deixa Falar é tradicionalmente considerada a primeira escola de samba, embora pesquisadores observem que ela funcionou inicialmente como bloco e depois como rancho. Em 1929, participou de um concurso de sambas promovido por Zé Espinguela. Já o primeiro desfile competitivo entre escolas ocorreu em 1932, como explica a MultiRio.

A Vai Como Pode, que posteriormente recebeu o nome de Portela, e a Estação Primeira de Mangueira também tiveram papel decisivo na consolidação desse formato. Durante a década de 1930, os desfiles ganharam regras, reconhecimento oficial e maior aproximação com o poder público. Ao mesmo tempo, as escolas precisaram negociar sua presença com políticas de controle e projetos de identidade nacional.

Nas décadas seguintes, o crescimento das agremiações, a transmissão pelos meios de comunicação e os investimentos públicos e privados transformaram os desfiles em grandes espetáculos. Em 1984, foi inaugurada no Rio de Janeiro a Passarela Professor Darcy Ribeiro, conhecida como Sambódromo da Marquês de Sapucaí. Projetada por Oscar Niemeyer, a estrutura passou a concentrar os desfiles das principais escolas de samba cariocas, conforme registro da Prefeitura do Rio de Janeiro.

Desfile da escola de samba Beija-Flor no Sambódromo da Marquês de Sapucaí em 1985
Desfile da Beija-Flor no Sambódromo da Marquês de Sapucaí, 1985. Fotografia: Armando Borges. Licença CC BY-SA 2.0. Fonte: Wikimedia Commons.

O trio elétrico e a transformação do Carnaval baiano

Em Salvador, outra inovação mudaria definitivamente a relação entre música, rua e multidão. No Carnaval de 1950, Dodô e Osmar instalaram instrumentos elétricos e alto-falantes sobre um antigo automóvel Ford, conhecido como “Fobica”, e percorreram as ruas da cidade. No ano seguinte, com a participação de Temístocles Aragão, a formação passou a ser anunciada como trio elétrico.

Inicialmente instrumental, o trio ganhou uma nova dimensão nas décadas seguintes. Moraes Moreira tornou-se o primeiro cantor a se apresentar sobre o trio de Dodô e Osmar, incorporando voz e canções ao formato e ajudando a consolidar o chamado frevo trieletrizado. A trajetória transformou o trio elétrico em símbolo do Carnaval da Bahia e influenciou festas em várias regiões do país. A história é registrada pela Prefeitura de Salvador e por instituições culturais baianas.

Patrimônio cultural, turismo e economia

Ao longo do século XX, o Carnaval tornou-se também uma ampla cadeia de produção cultural. A festa mobiliza artistas, músicos, costureiras, aderecistas, técnicos, vendedores, profissionais do turismo, trabalhadores informais, blocos, agremiações e comunidades tradicionais. A dimensão econômica cresceu, mas permanece ligada a conhecimentos, memórias e práticas transmitidos entre gerações.

Mais do que entretenimento, o Carnaval é um espaço de criação, pertencimento e disputa por visibilidade. Suas múltiplas manifestações contam histórias sobre o Brasil, suas desigualdades, resistências, invenções e formas coletivas de ocupar as ruas.

A origem do Carnaval brasileiro, portanto, não cabe em uma única explicação. Ela se encontra no encontro entre tradições, na criatividade popular e nas transformações promovidas por diferentes comunidades ao longo do tempo. É justamente essa diversidade que faz da festa uma das mais importantes expressões culturais do país.

Referências consultadas

  1. LAPICCIRELLA, Roberto (org.). Antologia musical popular brasileira: as marchinhas de carnaval. São Paulo: Musa Editora, 1996. Informações bibliográficas disponíveis no Google Livros.
  2. GASPAR, Lúcia. Entrudo. Pesquisa Escolar, Fundação Joaquim Nabuco. Atualizado em 22 nov. 2023. Disponível em: Fundaj. Acesso em: 14 ago. 2026.
  3. PINTO, Tales. História do Carnaval no Brasil. Brasil Escola. Republicado por Geledés em 13 fev. 2015. Disponível em: Geledés. Acesso em: 14 ago. 2026.
  4. SILVA, Daniel Neves. História do Carnaval no Brasil. Brasil Escola. Disponível em: Brasil Escola. Acesso em: 14 ago. 2026.
  5. INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL. Carnaval brasileiro é caracterizado por bens culturais protegidos pelo Iphan. 3 fev. 2016. Disponível em: Iphan. Acesso em: 14 ago. 2026.
  6. INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL. Ritmos carnavalescos revelam a riqueza do Patrimônio Cultural Brasileiro. 8 fev. 2018. Disponível em: Iphan. Acesso em: 14 ago. 2026.
  1. FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL. No Dia Nacional do Samba, uma homenagem ao gênero musical icônico do Brasil e a Donga, um dos compositores de “Pelo Telefone”. Brasiliana Fotográfica. Disponível em: Brasiliana Fotográfica. Acesso em: 14 ago. 2026.
  2. MULTIRIO. A história dos desfiles das escolas de samba. Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: MultiRio. Acesso em: 14 ago. 2026.
  3. PREFEITURA DE SALVADOR. Centenário de Osmar Macêdo é celebrado no Furdunço. Disponível em: Secretaria de Comunicação. Acesso em: 14 ago. 2026.
  4. PREFEITURA DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO. Sobre a Passarela Professor Darcy Ribeiro. Disponível em: Prefeitura do Rio. Acesso em: 14 ago. 2026.
  5. DICIONÁRIO CRAVO ALBIN DA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA. Chiquinha Gonzaga. Disponível em: Dicionário Cravo Albin. Acesso em: 14 ago. 2026.

Expediente

Texto, pesquisa e curadoria editorial: Lorena Araújo Hirsch. Publicação original em 15 fev. 2019; revisão em 21 fev. 2023; atualização em ago. 2026, com apoio de IA assistiva apenas na adequação textual e na conferência de referências, sob revisão e decisão final da autora.

Como citar: HIRSCH, Lorena Araújo. A origem do Carnaval. Biblioteca Universitária Zilda Paim – CECULT/UFRB, Santo Amaro, 15 fev. 2019. Atualizado em ago. 2026. Disponível em: https://ufrb.edu.br/bibliotecacecult/noticias/228-a-origem-do. Acesso em: ___.

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