A origem do Carnaval
Do entrudo trazido pelos portugueses às marchinhas, ao samba, aos afoxés, ao frevo, ao maracatu e ao trio elétrico, o Carnaval brasileiro foi construído por encontros, disputas e transformações culturais.
Uma história construída por encontros
Não existe uma única origem capaz de explicar o Carnaval brasileiro como ele é conhecido atualmente. O entrudo português e as festas de máscaras europeias estão entre as referências que chegaram ao Brasil durante a colonização, como registra a obra sobre marchinhas organizada por Roberto Lapiccirella. No entanto, essas práticas foram profundamente transformadas no país pela atuação de diferentes grupos sociais e, de maneira decisiva, pelas culturas africanas e afro-brasileiras.
Por isso, é mais adequado falar em formação e transformação do Carnaval brasileiro do que atribuir a festa exclusivamente a uma única matriz cultural. O entrudo ajuda a explicar o início dessa trajetória, mas não resume a diversidade de manifestações que se desenvolveram no Brasil.
O entrudo no período colonial
A palavra entrudo deriva do latim introitu, com o sentido de entrada ou introdução, e fazia referência ao período que antecedia a Quaresma. Trazida pelos colonizadores portugueses, a brincadeira tornou-se uma das primeiras manifestações relacionadas ao Carnaval no Brasil, conforme registra a Fundação Joaquim Nabuco.
Nas ruas, as pessoas lançavam umas nas outras água, farinha e diferentes substâncias. Também eram usados os chamados limões de cheiro, pequenas esferas de cera preenchidas com líquido perfumado. Nem sempre, porém, a brincadeira era inofensiva: líquidos sujos, alimentos deteriorados e materiais capazes de provocar ferimentos fizeram com que o entrudo fosse frequentemente descrito como violento.
A participação na festa também revelava as desigualdades da sociedade colonial. Pessoas escravizadas ocupavam as ruas e participavam das brincadeiras públicas, enquanto famílias abastadas costumavam permanecer em suas residências, de onde também lançavam água sobre quem passava. Assim, a folia reunia diferentes grupos, mas não eliminava as hierarquias sociais nem a violência da escravidão.
Ao longo do século XIX, sucessivas proibições e campanhas da imprensa buscaram controlar o entrudo. Enquanto as manifestações populares eram reprimidas, clubes e teatros recebiam bailes de máscaras inspirados nos modelos europeus, embalados principalmente por polcas. A tentativa de disciplinar a festa, contudo, não impediu que novas formas de Carnaval ocupassem as ruas.
Sociedades, cordões, ranchos e novas sonoridades
Na segunda metade do século XIX, as grandes sociedades carnavalescas passaram a organizar cortejos com fantasias, carros alegóricos e apresentações públicas. Paralelamente, as camadas populares criaram cordões e ranchos, que articulavam música, dança, elementos das procissões religiosas, capoeira, percussão e experiências das comunidades urbanas e rurais.
Os cordões apresentavam formações mais livres e ruidosas, muitas vezes acompanhadas pelos zé-pereiras, tocadores de grandes bumbos. Os ranchos desenvolveram cortejos mais organizados, com porta-estandarte, canto e acompanhamento instrumental. Essas manifestações ajudaram a preparar o terreno para as marchinhas, os blocos e, posteriormente, as escolas de samba.
Em 1899, Chiquinha Gonzaga compôs Ó Abre Alas para o cordão Rosa de Ouro. A obra é reconhecida como a primeira música brasileira criada especialmente para animar o Carnaval e tornou-se uma referência da marcha carnavalesca, conforme registra o Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira.
O samba e a presença afro-brasileira
O samba urbano carioca consolidou-se no início do século XX a partir de tradições musicais afro-brasileiras, das rodas realizadas em casas de baianas e dos encontros de músicos na região da Praça XI, conhecida como Pequena África. A casa de Tia Ciata tornou-se um dos principais espaços dessa história.
Em 1916, Donga registrou na Biblioteca Nacional a composição Pelo Telefone, associada também a Mauro de Almeida e a uma criação coletiva ocorrida nas rodas de samba. A música alcançou grande sucesso no Carnaval de 1917 e ficou conhecida como um marco da gravação e da difusão do gênero, embora sua autoria e a ideia de ter sido o “primeiro samba” continuem sendo discutidas por pesquisadores. O registro histórico está preservado pela Fundação Biblioteca Nacional.
Uma festa de muitos Brasis
Enquanto o samba e as marchinhas ganhavam projeção no Rio de Janeiro, outras manifestações reafirmavam a diversidade do Carnaval brasileiro. Na Bahia, os afoxés levaram às ruas ritmos, cortejos e símbolos ligados às tradições africanas e às religiões de matriz africana. Em Pernambuco, o frevo formou-se entre bandas, capoeiristas e grupos populares do Recife, enquanto os maracatus consolidaram expressões fundamentais da identidade afro-brasileira.
O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) reconhece essa pluralidade ao destacar, entre os bens culturais associados à festa, o frevo, o Maracatu Nação, o Maracatu de Baque Solto, as matrizes do samba do Rio de Janeiro, o Samba de Roda do Recôncavo Baiano e o Caboclinho de Pernambuco.
Nas primeiras décadas do século XX, os corsos também se tornaram populares. Neles, integrantes das elites urbanas percorriam as avenidas em automóveis abertos, lançando confetes e serpentinas. A prática perdeu força por volta da década de 1930, período em que as escolas de samba ampliavam sua presença na vida cultural das cidades.
Chiquinha Gonzaga compõe Ó Abre Alas para o cordão Rosa de Ouro.
Donga registra Pelo Telefone, sucesso no Carnaval do ano seguinte.
É fundada a Deixa Falar, considerada pioneira entre as escolas de samba.
O Rio de Janeiro recebe o primeiro desfile competitivo de escolas de samba.
Dodô e Osmar levam a “Fobica” às ruas de Salvador, marco do trio elétrico.
É inaugurada a Passarela do Samba, o Sambódromo do Rio de Janeiro.
Das primeiras escolas ao Sambódromo
Fundada no bairro carioca do Estácio em 1928, a Deixa Falar é tradicionalmente considerada a primeira escola de samba, embora pesquisadores observem que ela funcionou inicialmente como bloco e depois como rancho. Em 1929, participou de um concurso de sambas promovido por Zé Espinguela. Já o primeiro desfile competitivo entre escolas ocorreu em 1932, como explica a MultiRio.
A Vai Como Pode, que posteriormente recebeu o nome de Portela, e a Estação Primeira de Mangueira também tiveram papel decisivo na consolidação desse formato. Durante a década de 1930, os desfiles ganharam regras, reconhecimento oficial e maior aproximação com o poder público. Ao mesmo tempo, as escolas precisaram negociar sua presença com políticas de controle e projetos de identidade nacional.
Nas décadas seguintes, o crescimento das agremiações, a transmissão pelos meios de comunicação e os investimentos públicos e privados transformaram os desfiles em grandes espetáculos. Em 1984, foi inaugurada no Rio de Janeiro a Passarela Professor Darcy Ribeiro, conhecida como Sambódromo da Marquês de Sapucaí. Projetada por Oscar Niemeyer, a estrutura passou a concentrar os desfiles das principais escolas de samba cariocas, conforme registro da Prefeitura do Rio de Janeiro.
O trio elétrico e a transformação do Carnaval baiano
Em Salvador, outra inovação mudaria definitivamente a relação entre música, rua e multidão. No Carnaval de 1950, Dodô e Osmar instalaram instrumentos elétricos e alto-falantes sobre um antigo automóvel Ford, conhecido como “Fobica”, e percorreram as ruas da cidade. No ano seguinte, com a participação de Temístocles Aragão, a formação passou a ser anunciada como trio elétrico.
Inicialmente instrumental, o trio ganhou uma nova dimensão nas décadas seguintes. Moraes Moreira tornou-se o primeiro cantor a se apresentar sobre o trio de Dodô e Osmar, incorporando voz e canções ao formato e ajudando a consolidar o chamado frevo trieletrizado. A trajetória transformou o trio elétrico em símbolo do Carnaval da Bahia e influenciou festas em várias regiões do país. A história é registrada pela Prefeitura de Salvador e por instituições culturais baianas.
Patrimônio cultural, turismo e economia
Ao longo do século XX, o Carnaval tornou-se também uma ampla cadeia de produção cultural. A festa mobiliza artistas, músicos, costureiras, aderecistas, técnicos, vendedores, profissionais do turismo, trabalhadores informais, blocos, agremiações e comunidades tradicionais. A dimensão econômica cresceu, mas permanece ligada a conhecimentos, memórias e práticas transmitidos entre gerações.
Mais do que entretenimento, o Carnaval é um espaço de criação, pertencimento e disputa por visibilidade. Suas múltiplas manifestações contam histórias sobre o Brasil, suas desigualdades, resistências, invenções e formas coletivas de ocupar as ruas.
A origem do Carnaval brasileiro, portanto, não cabe em uma única explicação. Ela se encontra no encontro entre tradições, na criatividade popular e nas transformações promovidas por diferentes comunidades ao longo do tempo. É justamente essa diversidade que faz da festa uma das mais importantes expressões culturais do país.
Referências consultadas
- LAPICCIRELLA, Roberto (org.). Antologia musical popular brasileira: as marchinhas de carnaval. São Paulo: Musa Editora, 1996. Informações bibliográficas disponíveis no Google Livros.
- GASPAR, Lúcia. Entrudo. Pesquisa Escolar, Fundação Joaquim Nabuco. Atualizado em 22 nov. 2023. Disponível em: Fundaj. Acesso em: 14 ago. 2026.
- PINTO, Tales. História do Carnaval no Brasil. Brasil Escola. Republicado por Geledés em 13 fev. 2015. Disponível em: Geledés. Acesso em: 14 ago. 2026.
- SILVA, Daniel Neves. História do Carnaval no Brasil. Brasil Escola. Disponível em: Brasil Escola. Acesso em: 14 ago. 2026.
- INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL. Carnaval brasileiro é caracterizado por bens culturais protegidos pelo Iphan. 3 fev. 2016. Disponível em: Iphan. Acesso em: 14 ago. 2026.
- INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL. Ritmos carnavalescos revelam a riqueza do Patrimônio Cultural Brasileiro. 8 fev. 2018. Disponível em: Iphan. Acesso em: 14 ago. 2026.
- FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL. No Dia Nacional do Samba, uma homenagem ao gênero musical icônico do Brasil e a Donga, um dos compositores de “Pelo Telefone”. Brasiliana Fotográfica. Disponível em: Brasiliana Fotográfica. Acesso em: 14 ago. 2026.
- MULTIRIO. A história dos desfiles das escolas de samba. Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: MultiRio. Acesso em: 14 ago. 2026.
- PREFEITURA DE SALVADOR. Centenário de Osmar Macêdo é celebrado no Furdunço. Disponível em: Secretaria de Comunicação. Acesso em: 14 ago. 2026.
- PREFEITURA DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO. Sobre a Passarela Professor Darcy Ribeiro. Disponível em: Prefeitura do Rio. Acesso em: 14 ago. 2026.
- DICIONÁRIO CRAVO ALBIN DA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA. Chiquinha Gonzaga. Disponível em: Dicionário Cravo Albin. Acesso em: 14 ago. 2026.
Expediente
Texto, pesquisa e curadoria editorial: Lorena Araújo Hirsch. Publicação original em 15 fev. 2019; revisão em 21 fev. 2023; atualização em ago. 2026, com apoio de IA assistiva apenas na adequação textual e na conferência de referências, sob revisão e decisão final da autora.
Como citar: HIRSCH, Lorena Araújo. A origem do Carnaval. Biblioteca Universitária Zilda Paim – CECULT/UFRB, Santo Amaro, 15 fev. 2019. Atualizado em ago. 2026. Disponível em: https://ufrb.edu.br/bibliotecacecult/noticias/228-a-origem-do. Acesso em: ___.

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